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  • Dr João Alho

Fibromialgia - a doença subestimada e subtratada

Atualizado: 14 de mar. de 2019




Fibromialgia é, no mundo, o segundo principal motivo de procura ao médico Reumatologista, ficando atrás apenas da Osteoartrite na frequência de pacientes nas salas de espera dos consultórios médicos da minha especialidade.


Apesar de muito frequente - estima-se que entre 2 e 3% da população mundial seja portadora da doença -, é infelizmente ainda pouco reconhecida e portanto pouco diagnosticada e pouco tratada. Quem sofre com isso são os doentes.


É uma doença mais prevalente entre mulheres que entre homens. Para cada homem com fibromialgia, seis mulheres são acometidas. Embora ocorra principalmente entre os 20 e 55 anos, pode ocorrer também na terceira idade e até mesmo na infância.


Quais são os principais sintomas da fibromialgia? Costumamos dizer que os sintomas formam um tripé: Dor generalizada, distúrbios do sono e sintomas do Humor. Não existem sintomas específicos, de modo que cada paciente pode apresentar sintomatologia própria. Cabe ao médico saber interpretá-los e reconhecê-los.


No que diz respeito à dor generalizada, é um critério diagnóstico o paciente ter dor nos quatro quadrantes do corpo. O que significa isso? Se dividirmos o corpo humano em quatro quadrantes, o doente teria dor em cada uma delas. A dor em geral é musculoesquelética - nos ossos, tendões, músculos, mas não nas articulações -, mas seu padrão pode ser em fisgada, facada, choque, queimação… depende de paciente para paciente. Na fibromialgia, a percepção de dor está alterada, de modo que um mesmo estímulo que para uma pessoa comum seria não doloroso ou pouco doloroso para uma pessoa com fibromialgia acaba causando dor. Isso é importante para contextualizar o quanto as pessoas com a doença não compreendem essa percepção de dor diferenciada e acabam reproduzindo preconceitos e estigmas sobre os pacientes.


Assim como a dor, os distúrbios do sono também são diferentes de pessoa para pessoa. O sintoma mais comum é o sono não reparador. Porém, outros sintomas são percebidos, como vários despertares à noite, insônia e etc. Os pacientes não costumam me procurar com a queixa explícita do sono, mas quando questionados, gostam de dizer: - Ih, doutor, eu acordo parecendo ter levado uma surra! Como se não tivesse descansado. O esgotamento e a fadiga logo pela manhã chamam muito a atenção na Fibromialgia.


Os distúrbios do humor também fazem parte da síndrome. Fibromialgia não é sinônimo de depressão ou de ansiedade. Essas doenças compartilham sintomas, mas são patologias diferentes e que se tratam de maneira diferente também. Porém, é comum vermos pacientes com tristeza, falta de interesse e com a sensação de que não há solução. Não tenho dúvidas que a dor crônica generalizada e que um sono ruim são causa e consequência de tudo isso.


Os três conjuntos de sintoma são na verdade totalmente interligados. Você consegue dormir bem com uma dor de cabeça? Você consegue ter um dia muito produtivo no trabalho ou nos estudos depois de uma noite de sono ruim? Você já sentiu dores nas costas ou em outros locais do corpo em um dia que está mais triste ou estressado?


Tento fazer algumas comparações para explicar aos pacientes a diferença na percepção de dor. Por exemplo, imaginem duas pessoas: o indivíduo A não tem fibromialgia, enquanto o indivíduo B tem fibromialgia. Se ambos acordarem com uma dor nas costas da mesma intensidade, a pessoa A se incomoda, mas consegue fazer suas atividades habituais, enquanto B apresentará mais dificuldade para lidar com a mesma dor, que pode ser muitas vezes até incapacitante. Alguns médicos chamam isso de Síndrome da Amplificação dolorosa.


O diagnóstico da Fibromialgia é clínico, ou seja, depende de uma boa entrevista médica e de um bom exame físico, dispensando exames de imagem ou laboratoriais. Isso significa que não há um exame que determine a presença da doença. Entretanto, conforme os achados na consulta médica, é necessário solicitar alguns exames complementares para descartar outros diagnósticos (como por exemplo hipotireoidismo e síndrome da apnéia obstrutiva do sono) e também algumas doenças crônicas que podem coexistir com a Fibromialgia, como Lúpus, Artrite Reumatóide, Espondilite Anquilosante ou mesmo doenças não reumatológicas, como HIV, hepatites virais, Esclerose Múltipla e Diabetes.


O tratamento é desafiador. Muitas vezes o doente quer uma solução pro seu problema que seja dada pelo médico, como um remédio ou uma cirurgia. Entretanto, o grande tratamento para a fibromialgia é responsabilidade do paciente: o exercício físico. Claro que alguns remédios ajudam a modular a percepção de dor e trazem melhora - não irei citá-los para evitar auto-medicação -, mas o condicionamento físico adequado é que garante um bem estar ao doente para seguir sua vida como uma pessoa comum, com uma crise de dor vez ou outra.


Qualquer tipo de exercício? A princípio sim. Porém, vale lembrar que no início dos treinos o paciente apresentará uma piora da fadiga e da dor se não obedecer os seus próprios limites. Sendo assim, recomendo começar com exercícios de baixo impacto, como hidroginástica e pilates, e então progressivamente combinar com treinos aeróbicos e finalmente musculação ou outras modalidades de fortalecimento muscular, sempre respeitando um aumento paulatino nas cargas e de preferencia supervisionado por um profissional da educação física.


O tratamento depende de uma boa equipe multiprofissional. Além do médico e do educador físico, o psicólogo é importante. Fazer a psicoterapia convencional ajuda bastante, porém, cada vez mais tem ganhado espaço - respaldado de evidência científica - a TCC ( Terapia Cognitiva Comportamental), que é uma modalidade de psicoterapia a qual os pacientes com fibromialgia tem tido bastante sucesso no seus tratamentos.


Espero ter ajudado a todos entenderem melhor essa intrigante doença. Sigo a disposição de vocês nos comentários para dúvidas e depoimentos.


Até a próxima!

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